Postado em 26 de junho de 2026 - 4 min de leitura

Indústria de fios do Paraná conta com multiplicadores e rede de apoio para acolher profissionais refugiados

Mohammed trabalha na empresa desde 2017 e agora ajuda colegas vindos de diferentes países

Foi na Fiasul que o cubano Joanky Saavedra conquistou seu primeiro emprego formal no Brasil. Contratado em maio de 2024 pela indústria de fios, em Toledo (PR), ele ainda se recorda dos desafios enfrentados nos primeiros meses, principalmente em relação ao idioma.

“A equipe é maravilhosa, mas, no começo, era muito difícil entender as pessoas. Não é fácil deixar a família para trás, mas, se Deus quiser, vou ficar no Brasil a vida toda”, conta.

Joanky é um dos 430 profissionais refugiados e migrantes que trabalham na fábrica e representam quase metade do quadro de funcionários da unidade. Sua contratação ocorreu com o apoio da organização da sociedade civil Embaixada Solidária.

“Conto com o suporte de muitos parceiros, e eles também nos procuram. Hoje mesmo abrimos um processo seletivo e havia um brasileiro e 18 migrantes aguardando entrevista. Eles veem a Fiasul como uma oportunidade de recomeço. Hoje, os refugiados e migrantes são fundamentais para a sustentabilidade da produção industrial da região do Oeste do Paraná”, afirma Karen Brinker, gerente de Gestão de Pessoas da empresa.

Atualmente, profissionais de 10 nacionalidades integram a equipe da Fiasul. Ao longo dos anos, trabalhadores de 28 países já passaram pela indústria. Para promover a inclusão e facilitar a adaptação, a empresa desenvolveu um processo de acolhimento voltado à realidade multicultural de seus colaboradores.

O primeiro dia de trabalho é dedicado à apresentação das normas de segurança e dos procedimentos internos. Para superar possíveis barreiras linguísticas, os conteúdos são transmitidos com o apoio de recursos visuais, como vídeos, fotos e ilustrações.

Após essa etapa inicial, cada novo colaborador é acompanhado por um “multiplicador”, um operador mais experiente que fala o mesmo idioma do recém-chegado. Esse profissional atua como elo entre a empresa e o trabalhador, auxiliando no aprendizado das atividades e na adaptação à rotina. O acompanhamento dura cerca de 80 dias.

O emprego na Fiasul foi o primeiro do cubano Joanky no Brasil

“Como sou um dos mais antigos, ajudo a orientar”

Depois de haitianos e venezuelanos, os bengaleses formam atualmente o maior grupo de refugiados e migrantes na empresa. Entre eles está Mohammed Abdullah, que começou a trabalhar na Fiasul em 2017 e acompanhou de perto o crescimento da presença de funcionários de diferentes origens na fábrica.

“Tem muita gente que chega sem falar português direito e não sabe nem como comprar comida no mercado. Quando a pessoa chega, precisa de ajuda em muitas coisas. Como sou um dos mais antigos, procuro orientar e apoiar quem está começando”, relata o operador de máquinas.

Para facilitar a integração, a empresa já ofereceu cursos de português voltados a falantes de francês e crioulo haitiano, realizados no contraturno da fábrica. Além disso, mantém programas de incentivo à educação, subsidiando parte dos custos de cursos técnicos e de ensino superior, incluindo diversas áreas como eletromecânica e enfermagem.

O apoio, porém, vai além dos muros da empresa. Ao perceber que muitos refugiados chegam ao Brasil sem estrutura básica para se estabelecer, a Fiasul passou a mobilizar uma rede de parceiros para arrecadar móveis e utensílios domésticos. Atualmente, a companhia administra seis residências destinadas a trabalhadores de Bangladesh e atua como intermediária nos contratos de locação. A iniciativa ajuda a superar obstáculos comuns enfrentados pelos recém-chegados, como a barreira do idioma e a exigência de fiadores para alugar imóveis.

Apoio à saúde e à integração

Outro destaque é o programa de apoio às gestantes, que oferece orientações sobre o funcionamento do sistema de saúde brasileiro, acompanhamento pré-natal, parto e amamentação. Embora atenda todas as colaboradoras, a iniciativa busca acolher especialmente mulheres que vivenciam a maternidade longe de seu país de origem.

Temas como saúde mental, convivência intercultural e comportamento no ambiente de trabalho também fazem parte das ações permanentes da empresa. Esses assuntos são debatidos em encontros e grupos de apoio que estimulam o diálogo e fortalecem a integração entre profissionais de diferentes culturas.

Mesmo com as iniciativas já implantadas, Karen afirma que a empresa pretende ampliar ainda mais o suporte oferecido aos trabalhadores refugiados e migrantes. Um dos planos é ajudar a reunir famílias que permanecem separadas, muitas vezes em diferentes continentes.

Esse é o sonho de Mohammed. Com a esposa e o filho de seis meses em Bangladesh, ele espera poder trazê-los para Toledo, cidade de cerca de 160 mil habitantes que hoje representa a chance de um novo começo.